segunda-feira, 18 de maio de 2009

Apresentação do Cantinho da Flauta


 
Este blogue é composto de duas partes:

A melhor forma de me apresentar é referir o que me motiva. Tenho feito todos os esforços para entender a essência das relações entre a Arte, Filosofia e Ciência e a natureza humana (Espírito, Mente, Emoções, Corpo).

Embora a exploração continue, deixo a essência do que tenho descoberto, em 3 aforismos:
  • "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia"
Sir Arthur C. Clarke (co-inventor do satélite de
comunicações e autor de "2001, Odisseia no Espaço")


A este aforismo, eu acrescentaria:
  • "Qualquer sabedoria suficientemente avançada é inseparável da totalidade"
  • Qualquer especialização suficientemente avançada é indistinguível da idiotice"




segunda-feira, 11 de maio de 2009

A afinação e a obsessão do Lá



A afinação e a flauta transversal é um tópico interessante, uma vez que na minha experiência enquanto professor já acompanhei vários alunos desde o momento em que deram as primeiras notas, até ao ponto de eles ganharem consciência das origens de um correcto controlo da afinação. A veracidade das suas experiências é a melhor prova e os seus relatos confirmam uma realidade concreta e repetível, sempre que tocavam em bandas filarmónicas ou orquestras. Talvez o oboé não seja o instrumento mais afinado da orquestra, aquele que tradicionalmente é escolhido para dar a nota de afinação, nota que aliás deveria ser dada sempre em relação a outra (como o ré). A prática mostra que ao seu lado, um flautista consciente do seu instrumento, poderá no mínimo acompanhar a precisão do oboé. Este é o assunto a tratar adiante.

Debruço-me sobre a afinação da flauta transversal, aquela a que todos assistimos nos segundos anteriores ao início de uma audição ou recital. A afinação, enquanto desequilíbrio estrutural e/ou específico de algumas marcas de flauta, ultrapassa a intenção deste artigo, este assunto pode ser encontrado em variada bibliografia, pelo que me irei cingir às observações que provavelmente nunca verão por escrito. Na peugada da afinação, entre o relativo e o absoluto.

São os detalhes que distinguem o bom, do muito bom, ou o muito bom, do excelente. Obviamente, avaliar pode ser bastante subjectivo, ou por outro lado, reducionista, depende sempre da capacidade, à partida, do avaliador percepcionar detalhes e do valor que dá ao que é capaz de percepcionar (o que existe nesse seu mundo).

A afinação depende de 5 factores:
  1. Da velocidade da coluna de ar;
  2. Do ângulo de ataque da coluna de ar;
  3. Da relação torcional entre braços e boca;
  4. Da ressonância, via postura e respiração;
  5. Da acuidade psicomotora do tocador.
A qualidade da sonoridade está intimamente ligada à precisão da afinação, são totalmente interdependentes. A potência sonora e o esforço de suporte também se encontram conectados sistemicamente. A flauta nunca terá a potência de um trombone, uma vez atingida a sua potência óptima, incrementando a ressonância ao máximo, todo o acréscimo de potência sonora será feito às custas da qualidade ou do equilíbrio de outro factor.

A concentração sonora tem relação directa com o vibrato. Ele é uma manifestação do estado de homeostasia sonora, o momento em que deveremos considerar que o som ganha vida própria, tal e qual como no Homem se distingue o estado vibrante da Saúde (homeostase), do estado baço e doentio. A capacidade expressiva depende da capacidade de atingir este equilíbrio eutónico capaz de alimentar ou anular o vibrato, ambas as acções custam esforço ao flautista, uma vez que as duas são fugas a um estado de equilíbrio com maior inércia intrínseca. Por último, o vibrato é ele mesmo uma flutuação da afinação (uma órbita) e torna óbvia a natureza intrincada dos 5 factores descritos. A aprendizagem e a experimentação do que afirmo é complexa de escrever, de modo a abordar todas as dúvidas que se podem levantar, só em aulas é possível exemplificar e demonstrar, ou se já tem bastante prática de flauta, naturalmente tenderá a encontrar o sentido destas palavras.



Família das flautas transversais







Bem-vindos
ao reino confuso
da família das flautas,
onde tudo é uma
questão de tamanho:








Flautas com a cabeça torcida existem por duas razões:
  1. para as crianças (permite o alcance do braço), vem com cabeça curva e direita
  2. para acomodar um tubo comprido (nas flautas maiores)

As flautas transversais mais usadas:


alto

normal




Alguns tamanhos de flautas cairam em desuso, recordo-me por exemplo, quando comecei a tocar na banda da Sociedade Filarmónica Operária Amorense em 1983, tinha 11 anos, às vezes apareciam partituras para flautim em mi bemol, embora eu nunca tenha por lá visto o picoletto.

A história está repleta de peripécias flautísticas, é um instrumento muito divertido e luminoso. O picoletto encerrou a aventura pelas altas frequências porque é fisicamente impossível ultrapassar os 5000 Hz, o mesmo não aconteceu com as flautas graves, como veremos adiante. Antes de se haver normalizado a afinação do Lá3 a 440 Hz (em meados do séc. XIX e definitivamente em 1953), um flautista possuia imensas partes de flauta para adaptar a afinação de local para local. Um pesadelo, não admira que Mozart se tenha queixado ao pai da afinação na flauta !!!




(rara)






Na imagem ao lado pode observar uma cabeça de flauta baixo em madeira, o som da madeira é mais doce e suave.



Em termos de cabeças, novas experiências estão no mercado, é algo bastante típico na flauta, não sei se por causa do instrumento, se por causa dos flautistas mas é divertido. Veja a cabeça de cisne, e a cabeça vertical.






Temos a flauta transversal de buracos e chaves quadradas de Lopatin.

O novo sistema de chaves de Eva Kingma, que obviamente nada tem a ver com a imagem à esquerda.   

E em termos da arte decorativa, as flautas de John Lunn são um assombro para os olhos (vídeos); (flautas); (detalhes e coroas).


Pondo ordem na família neste século XXI:
Flautim em mi b ou picolletto
Flauta Alto em sol » 1 ; 2 ; 3
• Flauta de êmbolo ou Vermeleu


Flauta baixo vai até dó2

Flauta duplo contrabaixo vai até dó1

Flauta hiperbaixo vai até dó0

Uff, flautas de peso !!!


Flauta sub-contrabaixo



Flauta duplo-contrabaixo??? !!! oh não !!!
(feita por Kotato & Fukushima)



 Imaginem agora, hiperbaixo com electrónica - demais !!! 











Roberto Fabbriciani - flauta hiperbaixo - Ururashraju de "Glaciers"




Imaginem não 8 mas quase 13 metros de tubo, afinados em dó, mais de quatro oitavas abaixo da flauta normal !!! Não consigo evitar a ironia, mas tocar nesta flauta deve ser radicalmente vibrante, uma experiência verdadeiramente transcendental ou xamânica (EAC - estado alterado de consciência) ... ah, ah, ah ,ah!!!...




todas juntas em
ou

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Limites da Pedagogia

Talento inato não é o assunto que me leva a escrever este artigo. A pedagogia tem os seus limites nas fronteiras que separam o mestre, o aprendiz e a escola. O modo como estes elementos comunicam determinam o sucesso do empreendimento.

  • A palavra é um código que encerra significações imateriais, daí a importância das imagens (efeito figurativo da palavra). 
  • Um gesto exemplificativo pode também ocultar todo o Saber que o controla, a imitação poderá apurar a réplica, mas não a torna evidente para o outro (seja o aluno ou o mestre). 
  • As características sensoriais dos indivíduos poderão alterar significativamente a resignificação de gestos e palavras. O esquema corporal de cada um opera somente dentro do seu mundo, o do indivíduo. A adjectivação e o sucesso das tentativas irão sempre depender da noção, da sensibilidade e da vivência corporal de cada um, tal como os factores: sexo, idade, auto-estima, auto-imagem, etc.
  • A motivação pode ser um sério limite na aprendizagem, tenho reparado em algo curioso, em menores de idade, parece haver uma correlação entre o sucesso da aprendizagem e a presença dos pais. Ter alguém para quem dirigir o resultado do nosso esforço costuma trazer bons frutos.

Aprender implica conflito interno, repetição e resistência. Neste contexto, o espírito de sobrevivência de cada um é activado e age na selecção da informação e na sua administração.

A escola é uma área de controlo tanto sobre o aluno como sobre o professor, o que cada vez mais complica a pureza do processo de aprendizagem. Agendas e ideolgias têm vindo a limitar a livre relação entre o aprendiz e o mestre. Esta subtil diferença é feita para salientar a importância da escolha de um professor ou de um aluno (mais raro). Esta empatia é fundamental para a transferência recíproca das competências, sem perdas de densidade na informação. 

A escolha do instrumento que melhor representa o desafio do aprendiz é igualmente relevante, uma vez que permite atenuar o conflito interno intrínseco à aprendizagem. Deixo agora alguns momentos de reflexão sobre o contexto mais lato deste artigo. 



 


Mais sobre realidade, cultura, educação, simbiose, engenharia social neste programa de Olavo que recomendo ouvir na sua íntegra. Deixo aqui os trechos mais significativos:



Sobre música e imbecilização (do 12'42'' até 14'47''), e a marca do sócio-construtivismo (até 25'15''). Leitura aconselhada: "A Música, a Inteligência e a Personalidade" do original Dr. Minh Dung NGHIEM - "La musique, l'intelligence et la personnalité".



Recomenda-se agora a seguinte leitura:


Si bemol ou Lá sustenido na Flauta Transversal


Esta questão pode levantar algumas dúvidas, por isso, vamos pôr as ideias em ordem.

Nos últimos 20 anos, alguns métodos e/ou flautistas têm introduzido o hábito de fazer o Si b ou Lá# com a posição da figura em baixo, a opção 3.
(Figura W)

É nestas alturas que recordo os ensinamentos do meu prof., o flautista Carlos Franco, evitemos complicar o que é simples!!! Tenho encontrado alunos com 1 ou 2 anos de prática a usar a opção 3, o que é incongruente, uma aberração isenta de qualquer sentido prático. Esta situação confusa só é explicável à luz dos pensamentos de Max Weber (1864-1920), intelectual alemão, jurista e economista, um dos pais da Sociologia, quando caracterizou o Homem no século XX como um ESPECIALISTA SEM INTELIGÊNCIA, habitando um mundo de burocracia, observado com desencanto, numa sucessiva despiritualização e fragmentação do acto e numa dissolução crescente da Moral e dos Valores, enfim, de si mesmo.

Ironicamente afirmo, fujam dos especialistas, em especial, se desejarem aprender alguma coisa significativa. O conhecimento repousa sempre no caminho daqueles que o procuram, lembrem-se disso !!!

A opção 1 da figura W, é a posição que os alunos têm para dominar, explorando toda a mobilidade do polegar esquerdo, de outro modo, o polegar irá servir de apoio, erradamente. Depois desta premissa estar adquirida, então poderemos introduzir os casos especiais, e aí, a opção 3 pode favorecer alguma técnica digital e expressiva.

A opção 2 é específica para trilos, porque é leve e rápida. Vamos ser especialistas, mantendo alguma inteligência, bem sei que o bom-senso está em vias de extinção (!), o aluno assim que domina a opção 1, alcança a autonomia suficiente para escolher e decidir. E isso vem, apenas e só, com a experimentação própria.

Lembro que apesar de todos os entraves burocráticos da profissão, o professor tem obrigação de libertar o aluno - como pensar, e não a endoutriná-lo - o que pensar; e o aluno deve exigir do seu professor isso mesmo.


A saber ao escolher o instrumento



Este artigo é pensado para todos os amadores que desejem comprar uma flauta melhor e para aqueles que se estejam a iniciar, comprando a sua 1ª flauta.

Hoje e desde há 10-15 anos a esta parte, os preços das flautas mantêm-se praticamente inalteráveis. Reflexo da globalização e da concorrência, os preços mantêm-se à custa de alguma perda de qualidade nos acabamentos, sendo que independentemente das marcas, todas possuem algo feito na China. Lembre-se que vivemos num sistema que não serve o consumidor com a qualidade, mas sim, alimenta-o com o obsoleto e a baixa durabilidade, obrigando o consumidor a comprar o mais possível.


Os instrumentos musicais são taxados com o IVA mais alto, são considerados um artigo de luxo, a arte como luxo dentro das nossas sociedades "desenvolvidas", diz, de facto, bastante sobre elas e os problemas dos seus indivíduos.

Existem construtores de alta performance, para flautas de valores superiores a 5000 euros. Os clientes são profissionais que pretendem elevada durabilidade, fiabilidade e precisão, a maioria das flautas é feita parcial ou totalmente à mão e os revestimentos são a prata, ouro ou platina, nos quilates desejados. Um profissional busca contrabalançar os seus pontos mais fracos (os graves, os agudos, determinados harmónicos ou timbre do som), outras vezes e para quem se pode dar a esse luxo, o flautista tem várias flautas, usando-as de acordo com as suas características. E porque os olhos gostam de apreciar beleza e arte deixo mais um exemplo de excentricidade (ver autor).


Deixo a minha opinião, livre de influências comercias.

A sua 1ª flauta ou a compra de uma flauta melhor:
sublinho que deve falar sempre com o professor. No caso de pais ou avós desejarem oferecer uma flauta, deverão evitar comprar sem conselho de um especialista idóneo e mesmo assim, consultem previamente, no mínimo, três casas comerciais de venda de instrumentos.

Factores a ter em conta na escolha do instrumento:
  1. A idade do destinatário da flauta;
  2. A sua experiência ou capacidade musical inata;
  3. A relação preço/qualidade;
  4. A assistência técnica é outra coisa muito relevante, nem sempre o local de venda é o local de reparação. Leia este artigo sobre manutenção e conservação da flauta.
As marcas e os escalões de preços, requisitos básicos:
  • chaves abertas e desalinhadas, com mecânica de mi e revestimento prateado. Recuse ligas de crómio e/ou níquel (cromados, niquelados), uma vez que a embocadura e as chaves irão estar em contacto com a sua pele, estes metais irão ser absorvidos com a ajuda da humidade. Dependendo da sua susceptibilidade, evita o risco de irritações e alergias., do mesmo modo que ocorre com brincos e outros objectos de bijuteria.
  • A qualidade da flauta é medida empiricamente pelos executantes, para lá de váriadas características e rigor mecânico de construção, nesta fase inicial o mais importante é encontrar uma flauta que responda ao sopro com a menor resistência possível e um máximo de ressonância no instrumento.
  • Para crianças pequenas, a flauta com cabeça curva é uma boa solução, permite à criança segurar facilmente a flauta. Estas flautas trazem duas cabeças, uma curva e outra direita ou normal. Nas marcas habituais, a sua qualidade é geralmente adequada ao seu fim. Dependendo da criança, adequa-se às crianças abaixo dos 9 anos.
  • A flauta de cabeça curva para crianças é geralmente o início da gama, pelo que o preço é um pouco inferior ao resto da gama baixa.
  • As marcas têm vários modelos, mas os escalões de preços podem dividir-se, grosso modo, em grupos:
- até 300€;
- de 400€ a 1000€;
- 1000€ a 3000€;
- superior a 3000€ ...

Até 300€:
Temos flautas puramente chinesas que inundam o mercado desde os anos 90. É certo que têm vindo a melhorar nos anos mais recentes, não sei, se por culpa dos construtores, se por culpa de quem encomenda, mas uma coisa é certa, têm igualmente escalões de qualidade. No ano de 2000, apareceu-me uma aluna com uma destas flautas que simplesmente nem tocava, uma porcaria indecente de ser vendida ... ideal para decoração. Recentemente, pude experimentar uma flauta chinesa (chaves abertas e desalinhadas, com mecânica de mi e revestimento prateado), daquelas que tocam, assim uma espécie de cópia quase fiel das marcas estabelecidas. Neste caso, por 195€, é uma hipótese a considerar para todos os que têm pouco dinheiro ou circunstâncias de estudo incertas. Tem alguns desequilíbrios sonoros pontuais no Dó# e Ré, um som ou outro menos homogéneo, mas numa relação qualidade/preço satisfaz. Adequado para bandas filarmónicas e as suas escolas, até ao 3º grau dos conservatórios de música (máximo, um 5º grau).

De 400€ a 1000€:
São as marcas habituais do segmento para estudantes de conservatório, são as seguintes por ordem alfabética (a qualidade e os preços variam entre os vários modelos destas marcas):
  • Armstrong;
  • Gemeinhardt;
  • Júpiter;
  • Pearl;
  • Trevor James;
  • Yamaha;
  • Buffet Crampon;
  • e é possível que me tenha escapado alguma outra marca.
De 1000€ a 3000€:
A precisão mecânica, de construção, de emissão e ressonância sonora são as principais características desta gama:
  • Miyazawa, Muramastu, Powell, Sankyo entre muitas outras ...
De 3000€ para cima:
Acredite que nesta altura, saberá escolher por si mesmo a sua flauta. Pelo que o meu conselho é estude, estude e mereça uma máquina destas. Boa sorte !!!


O mercado de ALUGUER português é fraco e perspectiva quase sempre a induzir à venda do instrumento alugado. É quase uma venda a prestações, onde não se pode escolher a qualidade da flauta.

Boa escolha...